Talvez esse seja meu ponto de partida de uma longa e gostosa viagem. Após sair de 18 horas de plantão, já sabendo o que me aguardava em casa, decidi optar pela parte mais gostosa que seria a grande recepção de Clorolice. Antes de sair de casa a mesma tinha ficado com uma gastroenterite que me rendeu horas limpando a casa no dia anterior, preocupado e atarefado resolvi levá-la no veterinário assim que saísse de todos os plantões que por escala estava. A parte mais interessante dessa pequena parte da linha da vida é que enquanto dirigia para casa imaginei toda a cena de destruição, me imaginei horas limpando coco por tudo quanto era lado, cansado como estava, gritando aos quatro ventos e reclamando de tudo aquilo, tão cheio de cansaço, trabalho e fadiga, que nem perceberia o quão feliz ela estaria em me ver. Perceber isso me fez mudar a forma como eu chegaria em casa e aproveitaria aqueles poucos minutos de um surto de felicidade não se compararia a qualquer outra coisa, a casa a gente limpa quando a alma já estivesse lambida e afagada por todo aquele carinho e amor da recepção de quem o ama. É assim sucedeu, isso me fez querer encarar a vida assim, quando pensar em um ambiente de muito estresse e atritos, tentar chegar nele sempre olhando a parte boa, gostosa e animada e aproveitar o melhor que tem a oferecer e depois o restante se torna mais leve e até quase imperceptível de se ver. Clorolice certamente tem me ensinado a ser melhor, a aprender e lidar com meus próprios sentimentos e confusões, a descobrir e perceber coisas que nem sabia que já estavam aqui.
Penso, logo existo
Há nas palavras uma magia, um poder que as torna tão viva quanto um ser. Acredito que um dos presentes, ou, uma das maiores revelações de Deus aos homens foi está, o poder de conservar a história de vidas em trechos tão pequenos se comparado as horas vividas. Felizes os que conhecem e desfrutam deste maná e que continuam fazendo história, sua própria história.
quinta-feira, 15 de julho de 2021
terça-feira, 6 de março de 2012
A história (Parte I)
Aquela manhã estava perfeita, o sol estava radiante como todos os dias, os pássaros cantarolavam mais que o de costume e a leve brisa da madrugada ainda caiam por sobre as flores, onde abelhas e borboletas sobrevoavam num magnífico esplendor, o rio tocava uma belíssima sinfonia em sua corrente de águas.
Arthur debaixo de uma árvore podia ver e ouvir tudo que acontecia, sentir aquele vento roçando sobre seu rosto era como um passaporte onde se podia viajar por lugares distantes sem ter a mínima pressa de voltar. De repente, sentiu uma mão tocar-lhe em seus ombros, era benta pedindo licença para senta-se a seu lado.
- Posso acompanha-lo?
- Pode sim, sente-se.
- O que você esta pensando?
- Pensando? Em nada, só estou aqui de olhos fechados.
Arthur tinha uma forte amizade com Benta, desde criança, ambos nunca se separaram, eram como unha e cutícula, Benta sabia tudo sobre Arthur e ele sobre Benta.
Aquele ano para Arthur era decisivo, talvez o início de sua jornada, ou, de seus sonhos. Todas as manhãs ele saia caminhando pelos campos, até chegar a sua árvore, onde sentava e refletia por longas horas. No fundo, ele sabia que não desfrutaria mais daquilo, então aproveitava cada instante, com a intensidade de não haver o amanhã.
Arthur havia prestado vestibular e esperava o resultado que sairia aquela semana, todos os dias ele olhava a caixa dos correios para averiguar se havia algo que o interessasse. Então na manhã de sexta-feira, após voltar de seu passeio, Arthur abriu a caixa de correspondência e para sua alegria, havia uma carta que informava sua aprovação no curso de medicina, e para sua tristeza, ele sabia que agora precisaria partir, deixando tudo. Ele pensava em como seria sua vida a partir disso. E Benta, como ficaria? E os momentos na árvore? E seus pais?
Um dia antes de partir, Arthur chamou Benta até sua árvore e confessou seus medos, seus anseios e a grandiosidade da saudade que sentiria de tudo aquilo que o acompanhará até o momento, já estava escurecendo e ambos fora para casa com a certeza do que o amanhã os aguardava. Arthur não conseguiu pregar os olhos a noite inteira, o sentimento de alegria e tristeza o fazia sentir-se como a primeira vez que ganhou um cavalo de seu avô. Arthur tinha 11 anos quando azulão chegou à fazenda, ele era um cavalo de grande porte, musculoso e cheio de vigor, sem entender o que aquele cavalo fazia no pasto de seu pai, foi perguntar:
- Pai! Acho que a cerca quebrou de novo, tem um cavalo do seu Pixico aqui no campo.
- Cavalo? Ah, não meu filho, este cavalo é presente do seu avô, ele mandou para você, chegou agora de manhã e ele ligou dizendo que não foi possível vir pessoalmente fazer a entrega porque estava muito ocupado, mas assim que puder ele virá.
Arthur ficou impressionado com o que via, agora ele teria um cavalo só dele, seria seu dono, estaria sobre seus cuidados. Logo se aproximou do animal e ousou tocar-lhe, o cavalo correspondendo o seu movimento, estendeu o rosto até sua mão, Arthur apressou-se em selar o cavalo e experimentar dar um galope com azulão, este era o nome que seu avô escolherá para batizar o animal e Arthur adorou. Assim que montou, azulão, pois se a cavalgar com tamanha velocidade que Arthur tinha a sensação de estar voando mesmo em meio aos solavancos, sentia-se livre, como pássaros que cantarolavam ao amanhecer, e assim azulão o acompanhará até agora, não com o mesmo vigor de sete anos atrás, mas na calmaria de seus passos e nos pequenos trechos de galope que se tornavam cada vez menos frequentes. Lembrar-se de tudo isso, permitia-o perceber o quanto havia sido feliz naquele lugar tão modesto, e em meios a esses turbilhões de pensamentos e lembranças, adormeceu as três da manhã.
Ao amanhecer, a família de Arthur estava toda reunida para leva-lo até a estação do trem, sua mãe deixara rolar pela face, pequenas lagrimas que rapidamente eram interrompidas pela ponta de seus dedos. O pai como sempre, tinha que mostrar estabilidade em tudo, incluindo as emocionais, mesmo Arthur sendo filho único, nunca o mimou, sempre foi muito rígido quanto a educação do filho, e carinhosamente exigente quanto aos estudos. Tios, primos, até os vizinhos estavam presente, menos Benta, será que acontecera alguma coisa? Estaria ela terrivelmente doente para que não pudesse se despedir dele?
O barulho da sirene do trem avisava que dentro de instantes o trem partiria, Benta não chegava e Arthur começou a desesperar-se, por alguns minutos pensou em procura-la, mas isso o faria perder o trem. Num relance de olhar, Benta se aproximava correndo, surgindo em meio a multidão que passava, Arthur sentiu o coração disparar numa velocidade desconhecida, benta se aproximou e com um riso nos lábios disse:
- Ufa! Quase não consigo chegar.
- Pensava que você não viria mais.
- Jamais deixaria de me despedir do meu melhor amigo.
A sirene apitara pela ultima vez. Arthur segurou Benta pelas mãos e a puxou contra si num apertado, caloroso e longo abraço. Aos poucos ambos foram se soltando e de repente se viram aproximando seus rostos e em meio aos olhares copenetrantes tocaram-se os lábios, ambos não sabiam como aquele beijo fora acontecer, todos ficaram olhando sem compreender o que estava acontecendo, eles eram como irmãos, ou será que sempre foram namorados? Arthur abriu os olhos e notou que uma lagrima saia do rosto de Benta, ele, carinhosamente a enxugou com os dedo, segurou seu queixo, levantou seu rosto e sorriu. Nesse momento os motores já estavam ligados, e o trem se movimentou, Arthur olhou nos olhos de benta e disse para que ela o esperasse, ela balançou a cabeça em concordância, Arthur voltou-se para seus pais e os abraçou, em seguida saiu correndo para o trem e sentou-se numa janela onde permitia ver Benta acenando ao longe, com os olhos cheios de lágrimas e a face repleta de tristeza...
Angelilton de Moraes
A agenda
Em 14 de maio de 2008, ganhei uma agenda de uma tia e me pus a escrever, iniciei uma história que após a vigésima linha parei por alegar falta de inspiração. No dia 27 de janeiro de 2009, voltei a escrever essa história e mais uma vez parei, dessa vez desconheço o que me levou a isso. Revirando o guarda roupa, dentro de uma caixa, havia algo azul-marinho, ao encontrar essa agenda, fui ao encontro de mim, me admirei com meus pensamentos e com a forma de ver a vida, revivenciei minhas alegria, tristezas e dores, e por fim encontrei uma história inacabada. No primeiro momento pensei em ler até onde estava e fechar a agenda, mas uma coragem me fez querer continua-la e mais que isso, publica-la, e nesse mesmo instante um medo invadiu meu ser, acredito que o medo da indiferença, da ignorância e da incapacidade de fazer história, me fez pensar um milhão de vezes antes de coloca-la aqui. Mas decididamente optei em fazer isso e sentir todas as sensações que esse ato irá me proporcionar, seja elas boas ou ruins.
Peço aos que já fazem isso a mais tempo, que relevem as características do texto amador e que se quiserem deixar sugestões e criticas, estou disposto a recebe-las como forma de aprendizado.
Angelilton de Moraes
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