Aquela manhã estava perfeita, o sol estava radiante como todos os dias, os pássaros cantarolavam mais que o de costume e a leve brisa da madrugada ainda caiam por sobre as flores, onde abelhas e borboletas sobrevoavam num magnífico esplendor, o rio tocava uma belíssima sinfonia em sua corrente de águas.
Arthur debaixo de uma árvore podia ver e ouvir tudo que acontecia, sentir aquele vento roçando sobre seu rosto era como um passaporte onde se podia viajar por lugares distantes sem ter a mínima pressa de voltar. De repente, sentiu uma mão tocar-lhe em seus ombros, era benta pedindo licença para senta-se a seu lado.
- Posso acompanha-lo?
- Pode sim, sente-se.
- O que você esta pensando?
- Pensando? Em nada, só estou aqui de olhos fechados.
Arthur tinha uma forte amizade com Benta, desde criança, ambos nunca se separaram, eram como unha e cutícula, Benta sabia tudo sobre Arthur e ele sobre Benta.
Aquele ano para Arthur era decisivo, talvez o início de sua jornada, ou, de seus sonhos. Todas as manhãs ele saia caminhando pelos campos, até chegar a sua árvore, onde sentava e refletia por longas horas. No fundo, ele sabia que não desfrutaria mais daquilo, então aproveitava cada instante, com a intensidade de não haver o amanhã.
Arthur havia prestado vestibular e esperava o resultado que sairia aquela semana, todos os dias ele olhava a caixa dos correios para averiguar se havia algo que o interessasse. Então na manhã de sexta-feira, após voltar de seu passeio, Arthur abriu a caixa de correspondência e para sua alegria, havia uma carta que informava sua aprovação no curso de medicina, e para sua tristeza, ele sabia que agora precisaria partir, deixando tudo. Ele pensava em como seria sua vida a partir disso. E Benta, como ficaria? E os momentos na árvore? E seus pais?
Um dia antes de partir, Arthur chamou Benta até sua árvore e confessou seus medos, seus anseios e a grandiosidade da saudade que sentiria de tudo aquilo que o acompanhará até o momento, já estava escurecendo e ambos fora para casa com a certeza do que o amanhã os aguardava. Arthur não conseguiu pregar os olhos a noite inteira, o sentimento de alegria e tristeza o fazia sentir-se como a primeira vez que ganhou um cavalo de seu avô. Arthur tinha 11 anos quando azulão chegou à fazenda, ele era um cavalo de grande porte, musculoso e cheio de vigor, sem entender o que aquele cavalo fazia no pasto de seu pai, foi perguntar:
- Pai! Acho que a cerca quebrou de novo, tem um cavalo do seu Pixico aqui no campo.
- Cavalo? Ah, não meu filho, este cavalo é presente do seu avô, ele mandou para você, chegou agora de manhã e ele ligou dizendo que não foi possível vir pessoalmente fazer a entrega porque estava muito ocupado, mas assim que puder ele virá.
Arthur ficou impressionado com o que via, agora ele teria um cavalo só dele, seria seu dono, estaria sobre seus cuidados. Logo se aproximou do animal e ousou tocar-lhe, o cavalo correspondendo o seu movimento, estendeu o rosto até sua mão, Arthur apressou-se em selar o cavalo e experimentar dar um galope com azulão, este era o nome que seu avô escolherá para batizar o animal e Arthur adorou. Assim que montou, azulão, pois se a cavalgar com tamanha velocidade que Arthur tinha a sensação de estar voando mesmo em meio aos solavancos, sentia-se livre, como pássaros que cantarolavam ao amanhecer, e assim azulão o acompanhará até agora, não com o mesmo vigor de sete anos atrás, mas na calmaria de seus passos e nos pequenos trechos de galope que se tornavam cada vez menos frequentes. Lembrar-se de tudo isso, permitia-o perceber o quanto havia sido feliz naquele lugar tão modesto, e em meios a esses turbilhões de pensamentos e lembranças, adormeceu as três da manhã.
Ao amanhecer, a família de Arthur estava toda reunida para leva-lo até a estação do trem, sua mãe deixara rolar pela face, pequenas lagrimas que rapidamente eram interrompidas pela ponta de seus dedos. O pai como sempre, tinha que mostrar estabilidade em tudo, incluindo as emocionais, mesmo Arthur sendo filho único, nunca o mimou, sempre foi muito rígido quanto a educação do filho, e carinhosamente exigente quanto aos estudos. Tios, primos, até os vizinhos estavam presente, menos Benta, será que acontecera alguma coisa? Estaria ela terrivelmente doente para que não pudesse se despedir dele?
O barulho da sirene do trem avisava que dentro de instantes o trem partiria, Benta não chegava e Arthur começou a desesperar-se, por alguns minutos pensou em procura-la, mas isso o faria perder o trem. Num relance de olhar, Benta se aproximava correndo, surgindo em meio a multidão que passava, Arthur sentiu o coração disparar numa velocidade desconhecida, benta se aproximou e com um riso nos lábios disse:
- Ufa! Quase não consigo chegar.
- Pensava que você não viria mais.
- Jamais deixaria de me despedir do meu melhor amigo.
A sirene apitara pela ultima vez. Arthur segurou Benta pelas mãos e a puxou contra si num apertado, caloroso e longo abraço. Aos poucos ambos foram se soltando e de repente se viram aproximando seus rostos e em meio aos olhares copenetrantes tocaram-se os lábios, ambos não sabiam como aquele beijo fora acontecer, todos ficaram olhando sem compreender o que estava acontecendo, eles eram como irmãos, ou será que sempre foram namorados? Arthur abriu os olhos e notou que uma lagrima saia do rosto de Benta, ele, carinhosamente a enxugou com os dedo, segurou seu queixo, levantou seu rosto e sorriu. Nesse momento os motores já estavam ligados, e o trem se movimentou, Arthur olhou nos olhos de benta e disse para que ela o esperasse, ela balançou a cabeça em concordância, Arthur voltou-se para seus pais e os abraçou, em seguida saiu correndo para o trem e sentou-se numa janela onde permitia ver Benta acenando ao longe, com os olhos cheios de lágrimas e a face repleta de tristeza...
Angelilton de Moraes

